quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Home away from home

Publicado na Surf Portugal de Outubro de 2011 - artigo vencedor da Rubrica "A Voz da Tribo"

Amsterdam, 13 de Setembro de 2011

Desde que comecei a surfar há três anos nunca tinha comprado uma revista de surf. Incomoda-me sempre a grandeza - para mim inatingível - com que os pros nos bombardeiam nas fotos que preenchem inúmeras páginas das publicações da especialidade.
Contudo, em Março passado, dei por mim num novo emprego, onde viajar pela Europa é uma constante. E lá estava eu, com um bilhete de avião para o norte da Suécia no bolso, arrancado de um fim-de-semana em Sagres qual surf interruptus pelo dever que permite sustentar o meu vicio mais saudável, especado a olhar para a banca das revistas do Terminal 1 do Aeroporto da Portela.
Percorri indeciso as prateleiras, agarrei na Surf Portugal e levei-a comigo. Folheei-a no avião - sempre aquelas manobras - até à escala em Estocolmo: 5ºC a chover, e a começar a achar que devia ter ficado de molho noutros sítios mais Atlânticos... Mais umas horas depois e chegava a Luleå, a 3600km de casa e a dar metro e meio de neve! Com uma semana de trabalho pela frente, bem longe de qualquer pico surfável. E pensei para com os meus botões: Bela merda...
Mas contudo, todas as noites, na mesa de cabeceira do meu quarto de Hotel, lá estavam as fotos, luminosas, quentes, a prometerem-me esquerdas perfeitas com água a 25ºC (que fossem os 15ºC de Carcavelos, não importa, quando estão -20ºC na rua estás por tudo). Um bocadinho de casa que ajuda a lembrar o que te espera dentro de uns dias, uma janela para a tua segunda vida.
Desde então não tenho falhado uma. Tornou-se um ritual: Surf Portugal na banca da Portela, avião, e onde quer que esteja - Helsinki, Barcelona, Bruxelas - at the end of the day, sei que tenho um pedaço de casa sempre à mão.

Manuel Nina

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Algures no Atlântico...


Sinais de fogo, os homens se despedem,
exaustos e tranquilos, destas cinzas frias.
E o vento que essas cinzas nos dispersa
não é de nós, mas é quem reacende
outros sinais ardendo na distância,
um breve instante, gestos e palavras,
ansiosas brasas que se apagam logo.

Jorge de Sena - Sinais de fogo

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Mais uma platitude sobre viagens

A vida é um rio:
morres, ficas na margem.


Que o destino não interessa, o que vale a pena é a viagem - adágio tantas vezes enunciado - já todos nós estamos cansados de saber. E desta frase podem surgir coisas como "a vida é uma viagem", ou bonitas comparações com rios, e ondas, e toda a espécie de fluidos em movimento.

A maioria de nós vive destroçado, entre aquilo que se chama em engenharia um Regime Estacionário e um Regime Transiente. A existência, por natureza, é transiente. Todas as nossas experiências são transientes, os nossos actos, as nossas vidas. E contudo, agarramo-nos sempre aos regimes estacionários que são as nossas memórias.

Envelhecer não passa apenas de preterir as experiências em prol das memórias, deixar de aprender, deixar de querer aceitar o novo, o inseguro, o volátil. É mais tranquilizador abraçar o seguro, estável e cristalizado estado de Ontem, viver no tempo da memória. Jonathan Swift plasmou esta realidade numa brilhante metáfora das suas "Viagens de Gulliver", onde a fonte da vida eterna tem o terrível inconveniente de cegar de quem ela bebe. Viver para sempre, na mesma. Ser uma memória viva.

Alongo-me neste tema que tanto me fascina. Viagens. Todas as viagens podiam começar com a "I'm Going back to New Orleans" do Mason Jennings. São a materialização do Transiente. Não há outra actividade humana tão próxima da natureza da realidade como ir de viagem, mudar, viver os dias fora da rotina. Mesmo que essa viagem seja de regresso, a um local já conhecido, a uma memória.

Tudo muda, o que foi no passado não o é agora, ou como diria Heraclito se fosse vivo hoje: "Nunca apanharás a mesma onda no mesmo pico".

Entro de férias no sábado, e vou voltar a um sítio novo (se me perdoam o paradoxo-que-não-o-é), reviver e novamente cristalizar uma boa memória. E simplesmente largar um ano de trabalho e... fluir.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Visiting Day

Hoje é dia de me pôr ao caminho e ir visitar uma amiga especial...


Mandem os meus cumprimentos a Sto. António, que este ano tenho coisas melhores para fazer!

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Memorando da Troika ao Manel

"Exmo. Sujeito Passivo,
Sr. Manuel Nery Nina,


Dada a actual conjuntura da economia portuguesa, que lhe tocará, como a todos os portugueses, onde vos doi mais - na carteira - serve o presente memorando para lhe pedir que opte entre dois bens inestimáveis ao seu dia-a-dia, sendo que terá de abdicar de um deles em prol da sustentabilidade financeira e liquidez de tesouraria.


Os nossos melhores cumprimentos,
A Troika


PS: anexamos folheto - queira por favor fazer uma cruz sobre o item prescindido"


domingo, 5 de junho de 2011

Crónica da madrugada do dia 5 de Junho de 2011

Foi celebrado ontem o 4º aniversário da Time To Surf, a quem dou os meus parabéns e lanço os votos de maiores e ainda melhores sucessos para o futuro.


Dentro de 6 horas irão abrir as urnas para os Portugueses elegerem o seu XIX Governo Constitucional da 3ª República.

"Que tem isso a ver com surf?" pergunta o leitor. A resposta fácil seria dizer que o lema da 3ª República podia bem ser "há 36 anos a meter água", mas não irei por aí.

O que interessa para os Portugueses em geral, e para o Surf em particular, o Governo que irá ser eleito amanhã, será a definição das políticas para os próximos 4 (8?) anos, que nos irão dizer respeito a todos.
Porquê? Se pensarmos, fora os fatos de neoprene que vestimos, e a trendy "surfwear" que se vende por aí - produto de grandes empresas multinacionais - tanto as escolas de surf como os shapers são, por natureza, PMEs (pequenas e médias empresas).

As PMEs formam o grosso do tecido empresarial europeu, e são vistas como o futuro do sustento da sociedade e do modo de vida Europeu (do nosso estado social, etc.). E contudo, são muitas vezes as primeiras a sentirem na pele a violência estrutural que advém das crises financeiras, quer na carga fiscal, quer no acesso ao crédito, nas leis laborais, etc.

Por outro lado, tantas vezes advogado em praça e tão pouco concretizado, o aproveitamento que Portugal poderá - e deverá - fazer do Mar, em todas as suas vertentes de negócio, tem sido (desde a saudosa Expo 98), um plano adiado, votado para o campo das boas intenções, das bonitas referências de discursos, onde a palavra "sustentabilidade" ou o chamado "desígnio histórico nacional" tantas vezes lhe são glosadas, qual epopeia Camoniana votada a permanecer hermeticamente encerrada em relatórios, pareceres e Roadmaps.

Hoje todos estes temas estão em jogo. Hoje mais uma vez poderemos ter uma palavra a dizer sobre que futuro queremos para Portugal.

Ou então podemos ir à praia apanhar umas, e deixar mais uma vez o País a ver navios.

Hoje, ou nos comprometemos todos enquanto uma Nação, ou acabaremos no buraco, como indivíduos.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

My surfing mindset



Quando mais nenhum dos teus músculos se aguentar,
Quando não tens força nem para um último take-off,
Quando a última remada só chega para te devolver à margem,


Então tiveste um bom dia de surf.


Be grand in every little thing you do

segunda-feira, 9 de maio de 2011

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Cry 'Havoc', and let slip the dogs of war!

Passaram 40 dias desde a última vez que lá estiveste. "Uma quaresma de ondas" constatas, com frívolo interesse: a tua atenção está focada no ponteiro do velocímetro, parado nos 130 km/h enquanto o Litoral Alentejano se desenrola sem te captar a atenção do lado de fora da janela. Os minutos restantes escorrem demasiado devagar no indicador do GPS, à medida que te aproximas do teu destino, para Sul.

Na tua cabeça, o trabalho que ficou metódica e ortogonalmente arrumado na secretária tenta lançar fateixas e voltar a exigir a tua atenção, enquanto que as ondas lutam por baixo, esforçando-se por naufragar esse constructo de políticas, exigências e caprichos vindos de toda a Europa. Sorris: sabes que é apenas uma questão de tempo até o trabalho se afogar nas vagas salgadas, para só voltar à carga no "Bom dia Engenheiro" que a secretária te vai lançar na próxima semana.

Chuva. Merda. Isto vai-nos atrasar de certeza (e reduzir um pouco o consumo de combustível, mas isso não interessa)... começas a ficar irritado, distrais-te com a musica porreira - que não conheces - e vai saindo das colunas, escolhida pelo Hugo, enquanto que o carro corta o vento pela Via do Infante nas mãos plácidas do Miguel. Obras. Trânsito. Espanhóis - porquê Espanhóis...

A visão da Raposeira no horizonte: outras chuvas, uma toalha fumegante prestes a pegar fogo num aquecedor a óleo, uma piada brejeira sobre a versão porno-hardcore do Dartacão inventada entre cervejas com o Nuno, a primeira vez que jogaste à canasta, um baralho de campanha com um homem de bigode. Boas memórias.

Sagres voa entre abraços e reencontros, um mítico crepe ingurgitado entre golfadas de coca-cola (só precisas dum boost de hidratos de carbono, um pouco de hidratação e açúcar, despacha-te!) e o correr de fato ao ombro - boleia até à praia.

Há algo de frustrante na M: "ainda lá não apanhaste uma boa onda, tem uma corrente fdd para Este, ..." a voz na tua cabeça cala-se assim que espreitas por cima da sebe de arbustos e contemplas o mar.

Não interessa que esteja crowd, não interessa a lama, a chuva ou o sol que começa a falhar. As palavras do Gonçalo vêm partir o açaime de decoro que te faz estar estacado e extasiado a olhar para o mar de fato vestido: "vai la para dentro antes que..."

A voz perde-se com os primeiros acordes da Cavalgada que começa a soar-te dentro da cabeça, enquanto agarras a prancha num salto e corres na direcção das escadas. Ainda escutas com um sorriso o resto da frase "... faz aí o aquecimento no terraço do restaurante, para veres a cara do dono!".

Quase que gargalhas enquanto vais escada abaixo, despido de razão, de motivos, de pensamentos complexos, enquanto te esforças por ultrapassar o campo de pedras que te separa do mar.

Com um último salto mergulhas na primeira água. Wagner carrega dentro de ti. E o Julio César, de Shakespeare, berra-te ao longe:

"Cry 'Havoc', and let slip the dogs of war!"