A vida é um rio:
morres, ficas na margem.
Que o destino não interessa, o que vale a pena é a viagem - adágio tantas vezes enunciado - já todos nós estamos cansados de saber. E desta frase podem surgir coisas como "a vida é uma viagem", ou bonitas comparações com rios, e ondas, e toda a espécie de fluidos em movimento.
A maioria de nós vive destroçado, entre aquilo que se chama em engenharia um Regime Estacionário e um Regime Transiente. A existência, por natureza, é transiente. Todas as nossas experiências são transientes, os nossos actos, as nossas vidas. E contudo, agarramo-nos sempre aos regimes estacionários que são as nossas memórias.
Envelhecer não passa apenas de preterir as experiências em prol das memórias, deixar de aprender, deixar de querer aceitar o novo, o inseguro, o volátil. É mais tranquilizador abraçar o seguro, estável e cristalizado estado de Ontem, viver no tempo da memória. Jonathan Swift plasmou esta realidade numa brilhante metáfora das suas "Viagens de Gulliver", onde a fonte da vida eterna tem o terrível inconveniente de cegar de quem ela bebe. Viver para sempre, na mesma. Ser uma memória viva.
Alongo-me neste tema que tanto me fascina. Viagens. Todas as viagens podiam começar com a "I'm Going back to New Orleans" do Mason Jennings. São a materialização do Transiente. Não há outra actividade humana tão próxima da natureza da realidade como ir de viagem, mudar, viver os dias fora da rotina. Mesmo que essa viagem seja de regresso, a um local já conhecido, a uma memória.
Tudo muda, o que foi no passado não o é agora, ou como diria Heraclito se fosse vivo hoje: "Nunca apanharás a mesma onda no mesmo pico".
Entro de férias no sábado, e vou voltar a um sítio novo (se me perdoam o paradoxo-que-não-o-é), reviver e novamente cristalizar uma boa memória. E simplesmente largar um ano de trabalho e... fluir.
De acordo, meu velho.
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