O filósofo e o desporto de ondas: casei-os sem o seu consentimento. Ortega y Gasset, filósofo do inicio do séc. XX, no seu livro “Sobre a Caça” elabora uma excelente exposição sobre esta actividade, que ressoou em sintonia com a minha vida de surfista-de-tempos-livres e que me levou a escrever estas linhas. Diz-nos o filósofo:
“Divertirmo-nos é
afastarmo-nos provisóriamente do que costumamos ser, mudar durante algum tempo
a nossa personalidade efectiva por outra aparentemente arbitrária, intentar
evadirmo-nos do nosso mundo para outro que não é o nosso”.
E acrescenta,
sobre a dedicação dos homens aos seus divertimentos (no caso dele referindo-se
à caça):
“O mais activo
que um homem pode fazer não é fazer simplesmente alguma coisa, mas dedicar-se a
fazê-la (...) Frente à vida que se aniquila e malogra em si mesma – a vida como
trabalho – o homem erige um programa de uma vida que se goza em si mesma, a
vida como delícia e felicidade. Enquanto as ocupações forçosas se apresentam
com o cariz de imposição vinda de fora, a estas outras nos sentimos chamados
por uma voz íntima que as exige desde surdas e profundas dobras que jazem em
nosso recôndito ser. (...) Gostaríamos de as tornar perenes, de eterniza-las,
e, na verdade, absortos numa ocupação feliz sentimos um ressaibo, como estrela,
de eternidade”.
Se isto não é uma
das melhores imagens do que sentes naquele instante em que dropas a onda da tua
vida, não sei o que será.
“As ocupações
felizes, consta, não são necessáriamente prazeres: são esforços, e esforço são
os verdadeiros desportos. Não há, pois, que distinguir o trabalho do desporto
por um mais ou menos de fadiga. A diferença está em que o desporto é um esforço
feito libérrimamente, por satisfação com ele, enquanto que o trabalho é um
esforço feito à força com vista ao seu rendimento”.
Que é como quem
diz “quem rema por gosto não cansa”, e “um mau dia de surf é melhor que um bom
dia de trabalho” (esta última não está emoldurada no meu gabinete por motivos
evidentes).
E depois remata:
“Há, no desporto,
uma libérrima renúncia do homem à supremacia da sua humanidade”.
Se Ortega y
Gasset tivesse nascido umas décadas mais tarde, decerto teria sido surfista.
Poucos são os desportos em que o homem se submete voluntáriamente às forças da
Natureza como no surf. Há algo de épico e íntimamente pessoal nesta luta
perpétua com o Mar, cujo resultado final será inevitávelmente o mesmo: Todo
aquele que amarra um leash ao tornozelo, sabe que por mais que lute, o ultimo a
rir será sempre Neptuno.
Dizia o filósofo
que ao aficcionado compete apreciar emocionalmente o objecto do seu gosto. Esta
análise a que me dedico vai para além disso, vai ao mistico, ao simbólico, ao
arquétipo de todas as vidas humanas:
Todos dançamos
com a Vida enquanto por cá estamos. Surfar é mais uma pista, quem sabe das mais
sublimes e íntimas entre Homem e Mar, Vida e Morte, onde cada onda ripada, cada
manobra, é um grito de “estou vivo, estou aqui!” de nós para nós; um palco de
crime e castigo, drops e wipeouts, derrotas e triunfos. E naquelas horas de
surfada, “afastamo-nos provisóriamente do que costumamos ser”, trocamos a
gravata pelo wetsuit, e vamos à luta.
E é nesta luta
com o Mar que relembramos a nossa mortalidade, e a glória de estamos vivos.
