quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Soneto Surfista

Publicado na Surf Portugal de Julho de 2014 - artigo vencedor da Rubrica "A Voz da Tribo"

As alvas ondas no pico rebentando
Bafejadas pelo Alísio, moderado.
Luminoso céu de nuvens despojado
Em ceruleas paredes as espumas vão rolando.

Justo fato todo o corpo cingindo;
Niveas tábuas com wax bem aplicado;
O leash no tornozelo apertado;
E as esbeltas quilhas rebrilhando:

A ponto a praia está de aliciar-nos.
Só falta que tu queiras, meu amigo
Com tuas radicais manobras espantar-nos.

Se entramos, ou caia chuva, ou brame o vento
Não pode o fero Neptuno intimidar-nos,
Antes tudo será contentamento.

Inspirado no poema do séc. XVIII de António Correia Garção

quinta-feira, 8 de maio de 2014

O Céu dos Shapers é o Inferno dos Físicos

Publicado na Surf Portugal de Maio de 2014 - artigo vencedor da Rubrica "A Voz da Tribo"


Naquelas tardes quentes de Verão, em que fazes uma pausa na esplanada da praia entre surfadas, dei por mim a pensar se teria unhas para shapar.

Abordei a questão da forma que aprendi no Técnico: “que cadeiras me fariam falta?”. Materiais, e Mecânica dos Fluidos (I e II) já tinha tido, e Maquinagem também, para programar as máquinas CNC (vulgo “máquinas de shape”). Seria importante estudar Mecânica dos Fluidos Computacional, Polímeros, Compósitos, Mecânica dos Sólidos. 

A lista começou rápidamente a ficar demasiado grande, uma abordagem cientifica à arte de shapar levaria pelo menos mais um ano de aulas a tempo inteiro! E depois de toda essa formação? Que modelos desenvolver para as pranchas? Que parâmetros (e famílias de parâmetros) para cada surfista? E a resposta da superfície da onda?

Comecei a imaginar a nuvem negra das equações de Navier-Stokes a pairar sobre mim, mais as suas Condições Iniciais e de Fronteira… Doía-me a cabeça, e pedi uma jola em jeito de aspirina.

O colosso matemático da empresa a que me propunha lançar comeu-me ali e cuspiu-me, como volta e meia me acontece no Guincho em dias de mar pesadão…

Deixo o shape para quem sabe, como o Álvaro e o Nuno“Surdo”, cuja experiência e intuição rasgam toda uma Babel da Física como quem passa tranquilamente sob um vagalhão com a destreza dum bico-de-pato bem feito.

De nada lhes serve a Física ou a Matemática: cada cliente, cada amigo, é um caso que empiricamente diagnosticam, e receitam o tratamento, em forma de tábua.

Chamem-lhe Arte, Experiência ou Heurística Aplicada, os shapers estão cá para ficar, enquanto os surfistas souberem apreciar trabalho customizado, quais alfaiates de antanho!

E quanto aos Físicos? Ficarão com os seus modelos computacionais e as suas dores de cabeça, amenizadas, quem sabe, com jolas e surfadas, em tardes quentes de Verão.


Físicos e Shapers: “O céu dos gatos é o inferno dos pardais”.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Surf is the new Golf

São 7 da manhã algures na Linha. Estou à espera dele no parque de estacionamento. O Mercedes preto pára ao lado do meu carro, e cumprimentamo-nos com um aperto de mão.
O trato passa rapidamente da terceira pessoa para um caloroso “tu-cá-tu-lá”, enquanto lhe relato o spot onde vamos entrar (nunca aqui esteve), e as condições do mar.

Vamos trocando impressões sobre generalidades enquanto aquecemos na praia e entro à frente dele a remar para o outside, não demasiado rápido para não o deixar ficar para trás – há toda uma etiqueta aqui em jogo. No pico, quase sozinhos a esta hora, a primeira onda é minha para demonstração, mas as próximas são dele. Etiqueta.

Meia hora de sessão e começa o que realmente interessa: negócios.

Discutimos oportunidades futuras e projectos actuais das empresas onde trabalhamos, orçamentos e recursos humanos, tudo entre várias braçadas e algumas ondas. O ambiente é bem-disposto, informal, e ali no meio do mar que ninguém nos ouve, estamos abertos a uma conversa franca e produtiva.

Uma hora chega para o serviço, o resto são simpatias, dicas de outros spots surfáveis, viagens que um e outro fizeram, ondas que já apanhámos. Até à data, destas reuniões já tive duas. E muitas vezes reencontramo-nos no lineup. Com a geração de 70 e 80 a começar a chegar às Direcções de várias empresas, cada vez mais uma surfada é uma óptima desculpa para uma reunião informal.

Saímos da água já próximo das 9h, troca de roupa rápida (e o útil chuveiro na praia para limpar o sal da fronha) e depois de desajeitadamente darmos os nós nas gravatas no reflexo baço do vidro do carro, apertamos as mãos: Negócio Fechado.

Na política europeia muitos apontavam o dedo à Finlândia pela chamada “diplomacia de sauna”, negócios entre homens, à porta fechada, em reuniões pós-laborais nas saunas das grandes empresas onde os melhores negócios eram definidos, e o mesmo é sobejamente conhecido do meio golfista.

Pois bem, parece-me que Portugal começou a dar os primeiros passos do que poderá vir a ser a Diplomacia do Surf.