sexta-feira, 29 de abril de 2011

Cry 'Havoc', and let slip the dogs of war!

Passaram 40 dias desde a última vez que lá estiveste. "Uma quaresma de ondas" constatas, com frívolo interesse: a tua atenção está focada no ponteiro do velocímetro, parado nos 130 km/h enquanto o Litoral Alentejano se desenrola sem te captar a atenção do lado de fora da janela. Os minutos restantes escorrem demasiado devagar no indicador do GPS, à medida que te aproximas do teu destino, para Sul.

Na tua cabeça, o trabalho que ficou metódica e ortogonalmente arrumado na secretária tenta lançar fateixas e voltar a exigir a tua atenção, enquanto que as ondas lutam por baixo, esforçando-se por naufragar esse constructo de políticas, exigências e caprichos vindos de toda a Europa. Sorris: sabes que é apenas uma questão de tempo até o trabalho se afogar nas vagas salgadas, para só voltar à carga no "Bom dia Engenheiro" que a secretária te vai lançar na próxima semana.

Chuva. Merda. Isto vai-nos atrasar de certeza (e reduzir um pouco o consumo de combustível, mas isso não interessa)... começas a ficar irritado, distrais-te com a musica porreira - que não conheces - e vai saindo das colunas, escolhida pelo Hugo, enquanto que o carro corta o vento pela Via do Infante nas mãos plácidas do Miguel. Obras. Trânsito. Espanhóis - porquê Espanhóis...

A visão da Raposeira no horizonte: outras chuvas, uma toalha fumegante prestes a pegar fogo num aquecedor a óleo, uma piada brejeira sobre a versão porno-hardcore do Dartacão inventada entre cervejas com o Nuno, a primeira vez que jogaste à canasta, um baralho de campanha com um homem de bigode. Boas memórias.

Sagres voa entre abraços e reencontros, um mítico crepe ingurgitado entre golfadas de coca-cola (só precisas dum boost de hidratos de carbono, um pouco de hidratação e açúcar, despacha-te!) e o correr de fato ao ombro - boleia até à praia.

Há algo de frustrante na M: "ainda lá não apanhaste uma boa onda, tem uma corrente fdd para Este, ..." a voz na tua cabeça cala-se assim que espreitas por cima da sebe de arbustos e contemplas o mar.

Não interessa que esteja crowd, não interessa a lama, a chuva ou o sol que começa a falhar. As palavras do Gonçalo vêm partir o açaime de decoro que te faz estar estacado e extasiado a olhar para o mar de fato vestido: "vai la para dentro antes que..."

A voz perde-se com os primeiros acordes da Cavalgada que começa a soar-te dentro da cabeça, enquanto agarras a prancha num salto e corres na direcção das escadas. Ainda escutas com um sorriso o resto da frase "... faz aí o aquecimento no terraço do restaurante, para veres a cara do dono!".

Quase que gargalhas enquanto vais escada abaixo, despido de razão, de motivos, de pensamentos complexos, enquanto te esforças por ultrapassar o campo de pedras que te separa do mar.

Com um último salto mergulhas na primeira água. Wagner carrega dentro de ti. E o Julio César, de Shakespeare, berra-te ao longe:

"Cry 'Havoc', and let slip the dogs of war!"

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