Às vezes não faço ideia de onde me vêm estas ideias... mas cheira-me que talvez da mala do carro...
sábado, 15 de dezembro de 2012
segunda-feira, 10 de setembro de 2012
Ortega y Gasset e o Surf
Publicado na Surf Portugal de Agosto de 2012, vencedor da rubrica "A Voz da Tribo":
O filósofo e o desporto de ondas: casei-os sem o seu consentimento. Ortega y Gasset, filósofo do inicio do séc. XX, no seu livro “Sobre a Caça” elabora uma excelente exposição sobre esta actividade, que ressoou em sintonia com a minha vida de surfista-de-tempos-livres e que me levou a escrever estas linhas. Diz-nos o filósofo:
O filósofo e o desporto de ondas: casei-os sem o seu consentimento. Ortega y Gasset, filósofo do inicio do séc. XX, no seu livro “Sobre a Caça” elabora uma excelente exposição sobre esta actividade, que ressoou em sintonia com a minha vida de surfista-de-tempos-livres e que me levou a escrever estas linhas. Diz-nos o filósofo:
“Divertirmo-nos é
afastarmo-nos provisóriamente do que costumamos ser, mudar durante algum tempo
a nossa personalidade efectiva por outra aparentemente arbitrária, intentar
evadirmo-nos do nosso mundo para outro que não é o nosso”.
E acrescenta,
sobre a dedicação dos homens aos seus divertimentos (no caso dele referindo-se
à caça):
“O mais activo
que um homem pode fazer não é fazer simplesmente alguma coisa, mas dedicar-se a
fazê-la (...) Frente à vida que se aniquila e malogra em si mesma – a vida como
trabalho – o homem erige um programa de uma vida que se goza em si mesma, a
vida como delícia e felicidade. Enquanto as ocupações forçosas se apresentam
com o cariz de imposição vinda de fora, a estas outras nos sentimos chamados
por uma voz íntima que as exige desde surdas e profundas dobras que jazem em
nosso recôndito ser. (...) Gostaríamos de as tornar perenes, de eterniza-las,
e, na verdade, absortos numa ocupação feliz sentimos um ressaibo, como estrela,
de eternidade”.
Se isto não é uma
das melhores imagens do que sentes naquele instante em que dropas a onda da tua
vida, não sei o que será.
“As ocupações
felizes, consta, não são necessáriamente prazeres: são esforços, e esforço são
os verdadeiros desportos. Não há, pois, que distinguir o trabalho do desporto
por um mais ou menos de fadiga. A diferença está em que o desporto é um esforço
feito libérrimamente, por satisfação com ele, enquanto que o trabalho é um
esforço feito à força com vista ao seu rendimento”.
Que é como quem
diz “quem rema por gosto não cansa”, e “um mau dia de surf é melhor que um bom
dia de trabalho” (esta última não está emoldurada no meu gabinete por motivos
evidentes).
E depois remata:
“Há, no desporto,
uma libérrima renúncia do homem à supremacia da sua humanidade”.
Se Ortega y
Gasset tivesse nascido umas décadas mais tarde, decerto teria sido surfista.
Poucos são os desportos em que o homem se submete voluntáriamente às forças da
Natureza como no surf. Há algo de épico e íntimamente pessoal nesta luta
perpétua com o Mar, cujo resultado final será inevitávelmente o mesmo: Todo
aquele que amarra um leash ao tornozelo, sabe que por mais que lute, o ultimo a
rir será sempre Neptuno.
Dizia o filósofo
que ao aficcionado compete apreciar emocionalmente o objecto do seu gosto. Esta
análise a que me dedico vai para além disso, vai ao mistico, ao simbólico, ao
arquétipo de todas as vidas humanas:
Todos dançamos
com a Vida enquanto por cá estamos. Surfar é mais uma pista, quem sabe das mais
sublimes e íntimas entre Homem e Mar, Vida e Morte, onde cada onda ripada, cada
manobra, é um grito de “estou vivo, estou aqui!” de nós para nós; um palco de
crime e castigo, drops e wipeouts, derrotas e triunfos. E naquelas horas de
surfada, “afastamo-nos provisóriamente do que costumamos ser”, trocamos a
gravata pelo wetsuit, e vamos à luta.
E é nesta luta
com o Mar que relembramos a nossa mortalidade, e a glória de estamos vivos.
segunda-feira, 19 de março de 2012
Espaço da Memória
Publicado na Surf Portugal de Março de 2012 - artigo vencedor da Rubrica "A Voz da Tribo"
Dezembro de 2009
Chego à praia com a cabeça imersa em trabalho. Visto o fato ainda a fazer umas contas sobre qualquer assunto que deixei a meio no portátil e que insiste em permanecer-me na mente.
O ruído do mar começa a impor-se à medida que me vou aproximando do areal. Aquecimento, corrida, alongar… Observo as ondas com a sabedoria daqueles que só as estudaram em livros – a imagem do “Fluid Mechanics” do White surge-me, bem como as inúmeras semanas a estuda-lo para a faculdade… “direitas” ou “esquerdas” para mim soam-me a política, não a ondas, à medida que ouço a análise do mar e tento ligar aquilo que me dizem ao que se passa na água.
Ponho o leash no tornozelo esquerdo e avanço para a água, a olhar para o modo como as ondas deslizam ortogonais à margem. Algures na minha mente começa a construir-se um integral de volume, densidade vezes velocidade, a indicar-me o momento linear da onda e a força que poderá ter…
Silêncio. Súbito e inesperado silêncio. E a rebentação das ondas na proximidade. Mergulhei os pés na água e todas as equações e fórmulas dissolveram-se no mar, só fica uma paz e uma vontade de correr em direcção às ondas, sem cálculos nem números, só eu e o mar.
Apanhar espumas atrás de espumas, ir treinando take-offs, nada mais importa, 1-2-3, erguer-me a deslizar por uns segundos, cair, tentar de novo. Eu, o meu corpo, a prancha e o mar. Nada mais. Qualquer pequena tentativa de pensar em física e matemática é varrida da minha mente com uma onda a bater-me na cara, a limpar-me as narinas.
E a cada onda que remo, e a cada mergulho, a praia onde estou a surfar lembra-me sempre o mesmo sítio, e lembra-me sempre o mesmo local: Ericeira, 1990, e eu um puto a aprender a brincar no mar. E a cada tentativa de ir para o outside e de cada vez que enrolo e me agarro à tábua, todas as pranchas que uso são o braço forte do meu avô a levar-me pelas ondas.
Este é o poder irresistível que o surf exerce em mim. Transporta-me para o espaço da memória, para longe de secretárias e trabalhos de gravata.
Posso estar em qualquer praia do mundo, a surfar as ondas mais diferentes, mas num canto da minha cabeça, haverá sempre um miúdo de 6 anos a brincar nas ondas com o seu avô, na Ericeira, em 1990.
Dezembro de 2009
quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012
The Land of Blue Boats
foto: cortesia de Time To Surf
The Land of Blue Boats16-II-2012
I dream of blue boats
And distant shores
Of sandy beaches
And waves that soar
A shallow bay
Where sweet foam fades
Where tanned young girls
In blue boats play
And in those blue boats
Stranded amidst the vines
I see those blue skies
That once were mine
I’ve never been
To those bays of foam
But in my dreams
Those blue boats roam
They speak of freedom
And aulden days
Where I would run fast
‘tween sand and hay
And those blue boats
That can no longer sail
Tell me of old men
That beneath there lay
Will I one day
See the land of blue boats?
Or will they forever just sail
in my blue, blue dreams?
terça-feira, 7 de fevereiro de 2012
Breve Ensaio sobre o Surf em Marte
Concurso Surf Portugal Fev/2012 - Como seria o surf em Marte?
Factos interessantes: Marte tem sensivelmente metade do tamanho da Terra, e por ser menos denso, apresenta uma aceleração gravítica pouco mais de 1/3 da terrestre. Mais acresce que o dito planeta tem duas luas, Fobos e Deimos (as coisas que um tipo aprende na Wikipedia).
Resultados práticos: DUAS LUAS? Vocês têm noção da confusão de marés que isto dá? Os marcianos teriam algo como Praia-mar, baixa-mar, extra-baixa-mar e super-praia-mar! Por outro lado, com um terço da gravidade, nem consigo imaginar a loucura de aéreos que se deviam lá conseguir mandar - "E agora aqui vai Gabriel Medina, com mais um aereo a acabar sentado na esplanada, como é hábito! Sai um 10.0 e uma jola, por favor!".
Para não falar nos tipos de ondas que se devem formar com menos gravidade (se bem me lembro das Navier-Stokes), ondas mais altas e delgadas, com lips a fecharem muito mais devagar - já estou a imaginar o Kelly a mandar um roundhouse dentro dum tubaço e a sair de careca seca.
Tudo isto com o imponente Monte Olimpo no horizonte, com os seus 25km de altitude, para completar a fotografia.
Brutal!
quarta-feira, 4 de janeiro de 2012
Crónica do Quarto dia de Janeiro de Dois Mil e Doze
Abri a pestana a custo, o despertador marca 6:30, deixei-me submergir nos restos dos sonhos, no quente... 6:50 PORRA, já vou chegar atrasado - Time and Tide wait for no men...
O jipe arrasta-se a 80km/h pela A5 enquanto o raiar da aurora rompe o horizonte. Tenho um certo prazer em ver a fila de carros que se vai formando em direcção a Lisboa, enquanto eu sigo calmamente no sentido oposto.
7:50, nada mexe na Torre e em S. Pedro dizem-me que só lá fora é que está a funcionar... siga pra Carca.
8:00, o sol começa a emergir, e o termómetro marca 5ºC... PQP, tenho o fato molhado, e a certeza que mais ano menos ano deixo de ter paciência para estas merdas.
E contudo, quando o set entra a mandar metro e meio a entubar, tudo o resto é despiciendo. Não que eu tenha unhas para tal - deixa lá a prozada dar espectáculo - fico satisfeito com umas intermédias no inside, muito obrigado!
À medida que a manhã avança, sou forçado a tomar a decisão de infelizmente chegar tarde ao trabalho. Nada de desculpas, vai ser de caras: "o mar estava demasiado bom para sair!", logo se compensa com mais uma hora no fim do dia.
Arranco-me da água a meio do serviço, ainda com vontade de ficar de molho, mas já sei como é, mais de 2h dentro e depois de almoço a vontade de dormir a sesta é irresistível.
Sigo para Cascais com ar trocista, e a preparar o comentário que vou mandar à secretária à entrada do escritório - da fama já não me livro, ao menos que tenha também o proveito. Mas ao chegar à empresa, 10:00, está a porta fechada! Desligo o alarme de mansinho, ponho a tábua atrás da porta do gabinete, e ligo o computador. Se fui o primeiro a entrar, não há crime nem castigo! Perfect!
E eis que começam as endorfinas a bater. Que máquinas tão básicas somos nós, que basta uma surfada para te pôr um sorriso na cara. Noto com estranheza que começo a ler os mails com um sentimento de felicidade, algo que se vai intensificando ao longo da manhã. Somos tão fáceis...
E penso para os meus botões: se todo o país surfasse, não havia Troika que nos f*desse. :)
O jipe arrasta-se a 80km/h pela A5 enquanto o raiar da aurora rompe o horizonte. Tenho um certo prazer em ver a fila de carros que se vai formando em direcção a Lisboa, enquanto eu sigo calmamente no sentido oposto.
7:50, nada mexe na Torre e em S. Pedro dizem-me que só lá fora é que está a funcionar... siga pra Carca.
8:00, o sol começa a emergir, e o termómetro marca 5ºC... PQP, tenho o fato molhado, e a certeza que mais ano menos ano deixo de ter paciência para estas merdas.
E contudo, quando o set entra a mandar metro e meio a entubar, tudo o resto é despiciendo. Não que eu tenha unhas para tal - deixa lá a prozada dar espectáculo - fico satisfeito com umas intermédias no inside, muito obrigado!
À medida que a manhã avança, sou forçado a tomar a decisão de infelizmente chegar tarde ao trabalho. Nada de desculpas, vai ser de caras: "o mar estava demasiado bom para sair!", logo se compensa com mais uma hora no fim do dia.
Arranco-me da água a meio do serviço, ainda com vontade de ficar de molho, mas já sei como é, mais de 2h dentro e depois de almoço a vontade de dormir a sesta é irresistível.
Sigo para Cascais com ar trocista, e a preparar o comentário que vou mandar à secretária à entrada do escritório - da fama já não me livro, ao menos que tenha também o proveito. Mas ao chegar à empresa, 10:00, está a porta fechada! Desligo o alarme de mansinho, ponho a tábua atrás da porta do gabinete, e ligo o computador. Se fui o primeiro a entrar, não há crime nem castigo! Perfect!
E eis que começam as endorfinas a bater. Que máquinas tão básicas somos nós, que basta uma surfada para te pôr um sorriso na cara. Noto com estranheza que começo a ler os mails com um sentimento de felicidade, algo que se vai intensificando ao longo da manhã. Somos tão fáceis...
E penso para os meus botões: se todo o país surfasse, não havia Troika que nos f*desse. :)
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