Publicado na Surf Portugal de Maio de 2014 - artigo vencedor da Rubrica "A Voz da Tribo"
Naquelas tardes quentes de Verão, em que fazes uma pausa na
esplanada da praia entre surfadas, dei por mim a pensar se teria unhas para
shapar.
Abordei a questão da forma que aprendi no Técnico: “que
cadeiras me fariam falta?”. Materiais, e Mecânica dos Fluidos (I e II) já tinha
tido, e Maquinagem também, para programar as máquinas CNC (vulgo “máquinas de
shape”). Seria importante estudar Mecânica dos Fluidos Computacional,
Polímeros, Compósitos, Mecânica dos Sólidos.
A lista começou rápidamente a
ficar demasiado grande, uma abordagem cientifica à arte de shapar levaria pelo
menos mais um ano de aulas a tempo inteiro! E depois de toda essa formação? Que
modelos desenvolver para as pranchas? Que parâmetros (e famílias de parâmetros)
para cada surfista? E a resposta da superfície da onda?
Comecei a imaginar a nuvem negra das equações de
Navier-Stokes a pairar sobre mim, mais as suas Condições Iniciais e de
Fronteira… Doía-me a cabeça, e pedi uma jola em jeito de aspirina.
O colosso matemático da empresa a que me propunha lançar
comeu-me ali e cuspiu-me, como volta e meia me acontece no Guincho em dias de
mar pesadão…
Deixo o shape para quem sabe, como o Álvaro e o Nuno“Surdo”, cuja experiência e intuição rasgam toda uma Babel da Física como quem
passa tranquilamente sob um vagalhão com a destreza dum bico-de-pato bem feito.
De nada lhes serve a Física ou a Matemática: cada cliente,
cada amigo, é um caso que empiricamente diagnosticam, e receitam o tratamento,
em forma de tábua.
Chamem-lhe Arte, Experiência ou Heurística Aplicada, os
shapers estão cá para ficar, enquanto os surfistas souberem apreciar trabalho
customizado, quais alfaiates de antanho!
E quanto aos Físicos? Ficarão com os seus modelos
computacionais e as suas dores de cabeça, amenizadas, quem sabe, com jolas e
surfadas, em tardes quentes de Verão.
Físicos e Shapers: “O céu dos gatos é o inferno dos
pardais”.

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