segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Ortega y Gasset e o Surf

Publicado na Surf Portugal de Agosto de 2012, vencedor da rubrica "A Voz da Tribo":


O filósofo e o desporto de ondas: casei-os sem o seu consentimento. Ortega y Gasset, filósofo do inicio do séc. XX, no seu livro “Sobre a Caça” elabora uma excelente exposição sobre esta actividade, que ressoou em sintonia com a minha vida de surfista-de-tempos-livres e que me levou a escrever estas linhas. Diz-nos o filósofo:

“Divertirmo-nos é afastarmo-nos provisóriamente do que costumamos ser, mudar durante algum tempo a nossa personalidade efectiva por outra aparentemente arbitrária, intentar evadirmo-nos do nosso mundo para outro que não é o nosso”.

E acrescenta, sobre a dedicação dos homens aos seus divertimentos (no caso dele referindo-se à caça):

“O mais activo que um homem pode fazer não é fazer simplesmente alguma coisa, mas dedicar-se a fazê-la (...) Frente à vida que se aniquila e malogra em si mesma – a vida como trabalho – o homem erige um programa de uma vida que se goza em si mesma, a vida como delícia e felicidade. Enquanto as ocupações forçosas se apresentam com o cariz de imposição vinda de fora, a estas outras nos sentimos chamados por uma voz íntima que as exige desde surdas e profundas dobras que jazem em nosso recôndito ser. (...) Gostaríamos de as tornar perenes, de eterniza-las, e, na verdade, absortos numa ocupação feliz sentimos um ressaibo, como estrela, de eternidade”.

Se isto não é uma das melhores imagens do que sentes naquele instante em que dropas a onda da tua vida, não sei o que será.

“As ocupações felizes, consta, não são necessáriamente prazeres: são esforços, e esforço são os verdadeiros desportos. Não há, pois, que distinguir o trabalho do desporto por um mais ou menos de fadiga. A diferença está em que o desporto é um esforço feito libérrimamente, por satisfação com ele, enquanto que o trabalho é um esforço feito à força com vista ao seu rendimento”.

Que é como quem diz “quem rema por gosto não cansa”, e “um mau dia de surf é melhor que um bom dia de trabalho” (esta última não está emoldurada no meu gabinete por motivos evidentes).

E depois remata:
“Há, no desporto, uma libérrima renúncia do homem à supremacia da sua humanidade”.

Se Ortega y Gasset tivesse nascido umas décadas mais tarde, decerto teria sido surfista. Poucos são os desportos em que o homem se submete voluntáriamente às forças da Natureza como no surf. Há algo de épico e íntimamente pessoal nesta luta perpétua com o Mar, cujo resultado final será inevitávelmente o mesmo: Todo aquele que amarra um leash ao tornozelo, sabe que por mais que lute, o ultimo a rir será sempre Neptuno.

Dizia o filósofo que ao aficcionado compete apreciar emocionalmente o objecto do seu gosto. Esta análise a que me dedico vai para além disso, vai ao mistico, ao simbólico, ao arquétipo de todas as vidas humanas:
Todos dançamos com a Vida enquanto por cá estamos. Surfar é mais uma pista, quem sabe das mais sublimes e íntimas entre Homem e Mar, Vida e Morte, onde cada onda ripada, cada manobra, é um grito de “estou vivo, estou aqui!” de nós para nós; um palco de crime e castigo, drops e wipeouts, derrotas e triunfos. E naquelas horas de surfada, “afastamo-nos provisóriamente do que costumamos ser”, trocamos a gravata pelo wetsuit, e vamos à luta.

E é nesta luta com o Mar que relembramos a nossa mortalidade, e a glória de estamos vivos.

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