segunda-feira, 19 de março de 2012

Espaço da Memória

Publicado na Surf Portugal de Março de 2012 - artigo vencedor da Rubrica "A Voz da Tribo" 

Chego à praia com a cabeça imersa em trabalho. Visto o fato ainda a fazer umas contas sobre qualquer assunto que deixei a meio no portátil e que insiste em permanecer-me na mente.
O ruído do mar começa a impor-se à medida que me vou aproximando do areal. Aquecimento, corrida, alongar… Observo as ondas com a sabedoria daqueles que só as estudaram em livros – a imagem do “Fluid Mechanics” do White surge-me, bem como as inúmeras semanas a estuda-lo para a faculdade… “direitas” ou “esquerdas” para mim soam-me a política, não a ondas, à medida que ouço a análise do mar e tento ligar aquilo que me dizem ao que se passa na água.
Ponho o leash no tornozelo esquerdo e avanço para a água, a olhar para o modo como as ondas deslizam ortogonais à margem. Algures na minha mente começa a construir-se um integral de volume, densidade vezes velocidade, a indicar-me o momento linear da onda e a força que poderá ter…
Silêncio. Súbito e inesperado silêncio. E a rebentação das ondas na proximidade. Mergulhei os pés na água e todas as equações e fórmulas dissolveram-se no mar, só fica uma paz e uma vontade de correr em direcção às ondas, sem cálculos nem números, só eu e o mar.
Apanhar espumas atrás de espumas, ir treinando take-offs, nada mais importa, 1-2-3, erguer-me a deslizar por uns segundos, cair, tentar de novo. Eu, o meu corpo, a prancha e o mar. Nada mais. Qualquer pequena tentativa de pensar em física e matemática é varrida da minha mente com uma onda a bater-me na cara, a limpar-me as narinas.
E a cada onda que remo, e a cada mergulho, a praia onde estou a surfar lembra-me sempre o mesmo sítio, e lembra-me sempre o mesmo local: Ericeira, 1990, e eu um puto a aprender a brincar no mar. E a cada tentativa de ir para o outside e de cada vez que enrolo e me agarro à tábua, todas as pranchas que uso são o braço forte do meu avô a levar-me pelas ondas.
Este é o poder irresistível que o surf exerce em mim. Transporta-me para o espaço da memória, para longe de secretárias e trabalhos de gravata.
Posso estar em qualquer praia do mundo, a surfar as ondas mais diferentes, mas num canto da minha cabeça, haverá sempre um miúdo de 6 anos a brincar nas ondas com o seu avô, na Ericeira, em 1990.


Dezembro de 2009

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