Valência, 19 de Janeiro de 2013
Para além do prazer
físico e psicológico, surfar – para mim – compreende um benefício particular: a
profunda limpeza das fossas nasais. Sim, leitor, a completa limpeza dos salões,
não com rude e tosco dedo, mas sim qual brigada da Câmara Municipal de Lisboa,
de agulheta em punho, expurgando as ruas do Bairro Alto numa manhã de sábado. E
este genocídio completo de toda uma colónia de macacos, despejados à força após
o primeiro duck dive, devolve o sentido do olfacto ao meu rinítico e partido
nariz.
O mar é assim o elemento
neutro, sem odor, sobre o qual todos os cheiros se sentem, para o bem ou para o
mal. E nada pode suplantar a doce tortura de uma surfada ao entardecer no Verão,
onde o sol se vai pondo, lento e morno, numa costa onde os restaurantes vão
acendendo as luzes à medida que aqueles aqueles minutos do lusco-fusco vão
escorrendo, (“Sinais de fogo, os homens
se despedem...” diria Jorge de Sena, mas essa história fica para outro dia). E
com o acender das luzes, incendeiam-se também os grelhadores, imagem clara na
tua mente: um cozinheiro barrigudo e de bigode, empunhando uma mini e um
abanico, suando copiosamente para transformar uma pilha de carvão num templo à
febra, à entremeada e ao frango assado.
(Os vegetarianos radicais podem parar de ler
agora. O leitor esfomeado também. Considerem-se avisados.)
Mas não um templo
qualquer, santa-e-flores-de-plastico na berma duma estrada nacional, não! Um
altar de sacrifícios, à boa moda do Velho Testamento, com cenas de faca e
alguidar e hecatombe.
E este familiar aroma do
carvão a arder vai alastrando pelo mar, com promessas de bifes e costeletões de
novilho. Estás sentado na prancha, à espera do próximo set, mas no cheiro que
te chega à traição, na brisa offshore, imaginas aquela gordurinha da picanha, já
a ferver fumegante, mais os secretos e as plumas de porco preto, os lagartos e
os pianos, todo um exército pecuário em imolação na grelha em honra do Deus da
Retraça. E – sublime tortura do surfista – as mesmas brisas sugerem-te jolas bem geladas, batatas fritas
caseiras e alvos ovos estrelados, a cavalo ou em seu prato, a chamarem-te do
outside para a mesa.
E tu resistes a esta
armadilha, e fazes mais umas ondas, enquanto o gordo de bigode desfere o golpe
de misericórdia, metendo na grelha a posta mirandesa, ex-libris do bovino, toda
ela azeite e alho, que em espirais de fumo exige a tua presença. Pobre de ti,
de narinas em riste, que és puxado, assediado, por uma invisível mão carnal que
te aperta o estômago!
Mas heis que ela surge, e
tu só notas o perfume, doce e leve, daquela trança loura, que passou a remar
por ti com braçadas soltas, pele morena e fato justo.
E virando as costas ao
jantar, remas furiosamente atrás dela para o pico, em busca de outros prazeres,
que Freud te explicaria, têm muito a ver com a atracção obsessiva do surfista
em dropar tubos apertados.

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